Como éramos felizes e não sabíamos

Coluna do Fernando Machado

Vivi minha infância e adolescência num bairro periférico de Barreiras, rotulado como violento e dominado por gangues, a Vila Brasil. Freqüentei a Escola Estadual Prisco Viana, nesta fiz meu primeiro e único tratamento dentário e adquiri uma centena de amigos. Tive como mestra dentre tantas que me influenciaram imensamente, a Professora Minervina, rígida e de imensa dedicação ao exercício de educar. Também Professora Valda, figura docemente humana, inteiramente entregue à profissão e às causas religiosas, e por fim, meu primeiro amor, Professora Liziane, de olhos inebriantes como as águas da Lagoa Azul de São Desidério.

Gangues em Barreiras não são novidades e nem privilégio do meu bairro. Os “Rebeldes e Subversivos” datam dos anos 70. Pequenos “grupos de malfeitores” compostos de ingênuos delinqüentes juvenis de classe média, como os “Casaco Preto”, turma da “Rua de Baixo”, “Gângsteres” da Coréia (Barreirinhas) e na margem direita do Rio Grande, mediam força, distribuíam popularidade e beleza entre as “cocotas” da época.

Já no final da década de 80 e inicio de 90, “Jovens Arruaceiros” e recrutas do 4º BEC intitulavam-se “Os Dragões” e “Os Cobras”, enfrentavam-se pelo poder e a fama de “machão” nas festas do Clube Dragão Social, ABCD, no Bar Malte 90, discoteca Senzala, pelas ruas da “Barreira véa” e em tempos de carnaval. Sem mortalhas e atrás do Trio Elétrico de Aguinaldão, embalados pelos Biriba Boys, estes jovens bebiam conhaque, cheiravam Loló (mistura de Clorofórmio e o líquido da goma de mascar Babaloo), dificilmente fumavam maconha e quase nunca dispunham de lança perfume. Nada de mortes, digladiavam-se com violentos chutes e socos, entre soqueiras, cabos de aço, fivelas de cintos, e raramente facões e cutelos.  Mas, Barreiras cresceu, evoluiu e o “tali do pogresso” chegou.

O que falar da criança de onze meses de idade brutalmente assassinada nos braços da mãe, vitima de bala perdida num conflito entre gangues neste mês? Poderia ter sido no Rio de Janeiro, em São Paulo ou em Salvador, mas não, foi bem ali na Cascalheira, aqui em Barreiras no nosso Afeganistão pessoal!

Sim, nós já temos gangues que atiram com revolveres sim, “galeras” que matam crianças, e velhos que choram os jovens que enterram. Esta “briguinha” não é mais por fama, glória ou garotas, nem com vergalho de boi, “currião” ou chicote de laranja. A guerra é por pedra de crack, cocaína, maconha, pela cola que aspiram ou o tinner que inalam. Não são mais resolvidas “no braço”, e sim com trabucos “três oitão”, 9 milímetros, munição a gás e até metralhadoras.

Hoje os “grupelhos” são conhecidas como “Os Goy”, “Galera da Bagaça”, “Tribo de Jah”, “Caixa D´agua”, dentre tantas outras. Estes moleques não são os responsáveis diretos pelo tráfico de drogas e o comércio de armas de fogo, no máximo não passam de “avião” ou “vapor”, meros empregados do crime, e nem consumidores exclusivos da “parada”,  a “Playboyzada”  também se droga até os ossos, garantindo “o movimento”  da  “boca” e o financiamento da barbárie.

Há que saudades tenho do Colégio Padre Vieira, da educação física dos professores Odílio e Jorge Kerton (in memória), do teacher Juarez, e das práticas de horticultura com a serena Célia Rocha no Colégio Antonio Geraldo. Que tempo bom, onde nossas escolas eram capazes de influenciar a mocidade e impedir tais mazelas. Infelizes são os professores, antes chamados de mestres, hoje reles servidores públicos, mal remunerados e obrigados a educar e criar filhos alheios diante da ausência das famílias.

Salvemos estes meninos e meninas que praticam a violência como estilo de vida, que se alimentam na lateral da feira, almoçam farofa de salsicha ou tripa bovina. Nunca existiu nada de glamoroso no cotidiano das periferias ou no interior das gangues, Barreiras é um imenso barril de pólvora endividada socialmente, prestes a explodir.

Afago amavelmente todas as mães e vitimas da violência, miséria e impunidade. Porque se tudo piorar sumo no mundo, mas antes vou pro gerais, arranco toco, ganho um troco, produzo commodities, ajudo a balança comercial, participo da distribuição de renda, compro uma moto 125 e ripe serei.

Por Fernando Machado

Pré Alfabetizado

armundrongao@hotmail.com

17 ideias sobre “Como éramos felizes e não sabíamos

  1. Caro e conterrâneo amigo.

    Gostei muito da sua crônica sobre parte ou partas, tempos outrora, da nossa querida cidade. Jamais estaremos isentos do poder dos que acham “poderosos da criminalidade, ou da barbarie”. Quem sabe espiritos ou entidades de planetas vil. Não devemos adentar em tal complexidade, deixemos ao acaso.
    Caro conterrâneo, deixei Barreiras na década de setenta, início do seu apogeu, pois antes disso nada existia além da vila brasil, local, onde, de certo, você provavelmente nasceu, já com outra denominação. Lembra-se do Beco do Coador? acho que não, lembra-se do mocotó da nossa querida e memorável Alice? acho que não. Entre os anos sessenta e setenta, época que vivi “vivi” em Barreiras, não existia nenhuma violência, a questão das gangues, provalmente se formariam no final dessa época, mas tudo era divino e maravilhosos, boia no rio de ondas, banhos no rêgo e no rio grande, no baco pari, no buritizinho, tudo, tudo, dez, assim como a Maravilha e sua suntuosa arquitetura, apenas um pouco distante. Drogas? a única era os cigarrestes da manguba, que nada faziam mal.
    Caro conterrâneo, deixei Barreiras com cerca de vinte mil habitantes, hoje são mais de cem mil, ou quase duzentos, devemos criticar, sempre, contudo jamais deixemos a nossa terra “mãe” entre aqueles que nada tem a ver com ela. Ao invés, ou pelo contrário, devemos simplesmente assumí-la, protegê-la, dessa forma, com certeza esteremos protejentos os nossos filhos e irmãos.
    Resolvi comentar sobre sua crônica, quando mencionou o meu querido amigo e irmão Jorge Kerton, depois de mais de trinta anos, nos reencontramos em Barreiras, casualmente. Fui recepcionado juntamente com a minha esposa e filhos com um saboroso almoço “motó com mandioca”, feito por êle. Um ano depois nós o perdemos que Deus o tenha sempre ao seu lado. “Jorge, você merece”.
    Caso queira manter contato o meu email é romulima@uol.com.br.
    Abraços.
    Romualdo.

  2. Vivi essa infância que você viveu. Conheci alguns integrantes dos Cobras, os tratava bem, com mais medo do que cortesia. Conheço Odílio, conheci Jorge. A professora Minervina formou-se junto com a minha irmâ mais velha e com ela trabalhou algum tempo em outro município. Eu morava na rua José Bonifácio, pertinho do Beco do Coador. Meu pai ( conheceu? Zuza do jogo do bicho, marceneiro dos bons, faleceu há 10 anos). Não curti os Biriba Boys mas imagino como deviam ser bons!

    Tive uma infância feliz, tomando banho de chuva, disputando “biqueira” com a mulecada na rua, meus irmãos tomavam banho pelado no Rio Grande pulando do cais ou da velha ponte de madeira que já não existe e pude viver o que, com certeza, as crianças da minha família não viverão. Áfinal, dentro de casa é que é lugar seguro. E olhe lá…

    Bons tempo aquele!
    Abraços!
    Rosa Oliveira

  3. Quem é esse Jornalista Fernando Machado? picaretagem não né? esse cara é aquele que já puxou o saco de tantos políticos aqui na região e agora quer atrapalhar o trabalho do executivo da nossa querida cidade? Vá……

  4. Bom dia

    Meu Caro,Amigo

    Agora eu sei pq esta brigas em direito dos barreirense estudantis,será que ainda alguma viverá
    algum dia esse passado lindo de nossa cidade,creio que ñ.Mas ficará a lembrança de historias lindas
    de nossa cidade,falar nos anos 70 e 80 e emocionante os antigos teatros e cinemas e no eterno conjunto musical biriba boys onde é sem duvida o marco na juventude daquela epoca(Um abraço ao meu pai João do Biriba) e demais componentes daquela banda e o inesquecivel meu avô João Batista-Sr Biriba que deus o tenha em um bom lugar ,ufa e mta emoção.Caro amigo vc como um colunista respeitado e conceituado será
    que os jovens irão ainda resgatar essas raizes.

    Um

    abraço e Sucesso

    Arison Dias

  5. Prezado Arison Dias
    O Sr. Biriba faz parte da nossa história, com sua colaboração dada através da música à alegria, encantamento e diversão dos barreirenses. Não temos fotos do conjunto musical Biriba Boys, para poder publicá-las aqui no site. Será que a família poderia nos arranjar? Quem promoveu o entretenimento sadio e maravilhoso, como esse conjunto, também ajudou a construir Barreiras.
    Aguardo.
    Ignez Pitta

  6. Prezados Romualdo, Rafael e Rosa: suas lembranças muito enriquecem o site da história de Barreiras. Vocês têm fotos desses tempos? Escrevam mais, contem suas vivências e experiências aqui nessa terra que constinua sendo nossa.
    Aguardo
    Ignez Pitta

  7. kk C páa Barreiras ée o terror moss…

    Fika nelaa kem kéee , c páaa c pam akilo mermu
    GVB & GOY NA funçãoo

  8. ignez \pitta

    Eu tenho alguns registros dos Biriba Boys, foto da banda, Joao do Biriba (meu pai) e Sr-Biriba (meu avô).Me informe um endereço de email do qual eu possa passar essas fotos.

    Obrigado.

  9. Quando li esta crônica, lembrei-me do poema “Meus oito anos,” e afirmo para todos que quem faz a grandeza de uma nação é o povo que vive nela. Portanto cuidem de educar as crianças marginalizadas da periferia, aquelas que comem farofa de salsicha no almoço e talvez esses jovens não sejam os futuros aviões do tráfico que sustenta a playboyzada aí do centro. Quando um crime choca a população ou respinga de alguma forma na elite da sociedade é que aparecem os veios poéticos e filsóficos em escritos de fins de noite. Agora eu “indago,” no sentido literal mesmo, quantas vezes membros da elite delinqüente vai a um bairro pobre ajudar a um vapor em potência?

  10. Oi Rafael,

    Estou fazendo um trabalho sobre um dos Biribas Boys que morou aqui na França, o Luis Antônio. será que seu pai o conheceu? Gostaria de entrar em contato com ele, se ele o conheceu. Eis meu email: danielafr@hotmail.fr.
    Desde já obrigada.
    Abraço.

  11. ola á todos,desta grande e belissima cidade de barreiras,tho comg boas lembranças dos tempos q

  12. olá um bom dia a todos,que saudades da mha velha e querida barreiras,onde cheguei nos anos 80.que saudades do meu querido joão do biriba (filho),da magnifica professora e historiadora Ignez pitta.hoje moro em goiania,continuo na mha lida diaria de levar informações aos meus ouvintes através da ondas sonoras da Rádio Brasil Central Fm (RBC).mto trabalhei com joão do biriba servindo como empresario,vendendo seus shows em barzinhos da cidade e do rio de ondas,ah que saudade daqueles tempos.Em tempo gostaria de manter contatos com o meu grd amigo João,ainda tenho até guardado comigo um violão que ele me deu.saudades tbm da professora Ignez Pitta com quem trabalhei em um pequeno jornal de sua propriedade.enfim qtas saudades,por tudo que alí aprendi,no jornal,na Rádio Barreiras(Programa Patrulha RB)criado por mim e pelo inestimavel amigo Everaldo Jorge( que veio para Barreiras gerenciar a rádio.no mais um abraço a familia Biriba Boys,professora Inez Pitta,e a todos os meus amigos desta cidade que tanto amo.(carlosbarbosa78@hotmail)

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