jun 01 2009

A aventura do desbravamento do sertão paranaense pela Companhia Braviaco, segundo Joaquim da Rocha Medeiros

Publicado por Ignez Pitta às 7:54 PM em Personagens Barreirenses

Texto escrito por Victor Garcia Miranda, da Universidade Estadual do Paraná, e gentilmente cedido pelo autor para publicação no site História de Barreiras.

Às margens do Rio Paranapanema (no lado paranaense) com datação da década de 1920, iniciaram-se os primeiros empreendimentos modernos na região noroeste paranaense. O objetivo: construir uma grande e produtiva fazenda de café. Os personagens: os corajosos agrônomos Landulpho Alves (posteriormente governador da Bahia) e Joaquim da Rocha Medeiros, cerca de seis mil trabalhadores migrantes e o empreendedor Geraldo Rocha, responsável pela Companhia Brasileira de Viação e Comércio – Braviaco. Eis que, sob todas as barreiras impostas pelas dificultosas condições de acessibilidade e estabelecimento, os investimentos da Braviaco começaram a florescer no ermo e aventuroso sertão paranaense. O depoimento de Joaquim da Rocha Medeiros lastreia a narrativa abaixo. 

      Os primeiros capítulos dessa história se desenrolaram na base da luta. Por volta de 1923, Joaquim da Rocha Medeiros iniciou a abertura de um picadão, com dez metros de largura por sessenta quilômetros de extensão, na região mais nova da área de penetração paulista: o Pontal do Paranapanema, ao sul de Presidente Prudente-SP.  Medeiros trabalhava naquela época para a empresa Alves de Almeida & Cia. e procurara estabelecer naquela empreitada o chamado “Porto Itaparica” em uma gleba de terras de 20.000 alqueires nas margens do Paranapanema. O desbravar do noroeste paranaense começava a ser ensejado.

 Em junho de 1924, Medeiros assume uma outra missão. O empresário Geraldo Rocha, dono do jornal “A Noite” no Rio de Janeiro e o responsável pela empresa de transportes ferroviários Brazil Railway e pela Companhia Braviaco (subsidiária da anterior) confia-lhe uma missão em que visara transformar significativamente o “perobal” da floresta nativa em extensos e produtivos cafezais. Uma equipe era mobilizada, em Presidente Prudente, com os necessários meios para o avanço em território paranaense.

      O lugar de pertencimento da Braviaco começava na margem paranaense do Rio Paranapanema e se estendia até a margem direita do Rio Ivaí (atualmente, município de Paranavaí-PR), numa extensão de 108 quilômetros. Limitava-se a leste com a terra de ingleses (hoje, região de Maringá-PR) e a oeste com terras devolutas reservadas a futuros empreendimentos da própria Braviaco. Chamara-se “Gleba Pirapó” e os anseios para que ali se produzisse café eram imensos.

      As definições, então, foram estabelecidas no elenco que se dirigira ao local do estabelecimento. A direção dos trabalhos, sob a tutela de Landulpho Alves e a supervisão dos serviços de campo com Medeiros programaram o seguinte: derrubada da mata, plantio, formação do cafezal e demais serviços afeitos à organização de uma propriedade rural. A esses serviços, Landulpho e Medeiros revezavam em idas e vindas a São Paulo para a realização de tarefas.

      Na chegada ao local as batalhas com os grileiros foram duras. Eles tentaram com grupos armados tomar posse em diversos pontos da margem do Rio Paranapanema. A Medeiros coube, por mais de uma vez, ir até Curitiba e, como sub-delegado que era do recém criado distrito judicial de Montóya, requisitar força para desalojar os grileiros invasores.

      Vencida a etapa da invasão, deu-se inicio à construção da estrada de rodagem, toda ela em plena mata, até a barra do Rio Ivaí. Seguira-se então o transporte de uma serraria com todos os seus implementos, inclusive motor a vapor de cinquenta HP e uma respectiva caldeira; uma frota de vinte caminhões e ajudantes mateiros. A derrubada deveria dar suporte para o plantio de um milhão e duzentos mil cafeeiros; colônias, sede administrativa e ainda cerca de cem alqueires de pastagem de capim colonião para a manutenção das boiadas que seriam trazidas de Mato Grosso. Fora também construída uma estrada de rodagem ligando a fazenda ao Porto São José (divisa com o Mato Grosso) de cerca de cem quilômetros de extensão. Uma infra-estrutura predial e de maquinários que constituíram bens de capital que rareavam em ser encontrados pelo interior do Brasil.

      Em seguida ao alinhamento e plantio do café, era chegado o momento do transporte das famílias dos nordestinos para a sua formação. Centenas de famílias chegaram em trem especial até Presidente Prudente. Na primeira chegada na cidade paulista, estava chovendo torrencialmente, chuva que durou quarenta dias e quarenta noites (um verdadeiro dilúvio, nas palavras de Medeiros). Por sorte havia a nove quilômetros da cidade dois grandes galpões para criação de bicho da seda abandonados e mais outras coberturas desocupadas onde foi possível acomodar todo o pessoal. A estrada era de terra e atravessava o rio Santo Anastácio, cuja ponte de madeira foi por água a baixo. Cessadas as chuvas tiveram que reconstruir a ponte e de fazer cerca de nove quilômetros de estiva para poderem transpô-la até a área do cerrado. Para se alcançar a fazenda, atolando e desatolando carro, levou-se quase uma semana.

      As construções das casas não foram simples e rápidas. Embora já funcionando a serraria, trezentas casas e demais benfeitorias iniciais não poderiam ser feitas em poucos meses e sim em um ou dois anos. Por isso, ao chegar, cada família tratou de fazer seu próprio rancho, onde, por muito tempo, habitaram. À medida que se terminava a construção de uma casa era feito sorteio para ver a quem cabia, evitando-se, desta forma, o sentimento de preferências. Uma espécie de rústica diplomacia rural, segundo Medeiros, constituía-se em pedra de toque da administração, para manter o bem estar do que chegara a seis a sete mil administrados! (outra providência salutar fora a proibição da entrada de álcool ou de qualquer bebida alcoólica na região). 

      Toda a organização correra muito bem, relata Medeiros, mas eis que sobreveio a Revolução de 1930. Geraldo Rocha havia combatido a Revolução e defendido a candidatura de Julio Prestes. Ao vencer a revolução, um dos primeiros atos do governo revolucionário do Paraná foi cassar o titulo de propriedade da Gleba Pirapó, quiçá de todos os bens da Brazil Railway, disso resultando a suspensão do financiamento aos serviços da Fazenda. A falta de gasolina não permitia mais transporte e a tragédia se verificou: colonos e funcionários da empresa tiveram que se retirar a pé, andando duzentos e vinte quilômetros, perdendo todos os seus haveres.

      Como relata Medeiros: “Essa tragédia foi por mim vivida ao lado de minha família. Comigo também estava, com sua família o meu saudoso colega que era o Diretor Geral do empreendimento (sr. Landulpho Alves). Assim se desfecha o empreendimento de Geraldo Rocha no noroeste paranaense. 

Bibliografia:

SOARES DA SILVA, Paulo Marcelo. “História de Paranavaí”. Prefeitura Municipal de Paranavaí, S/D. 

Texto escrito por Victor Garcia Miranda, Universidade Estadual do Paraná

Um comentário

Um comentário to “A aventura do desbravamento do sertão paranaense pela Companhia Braviaco, segundo Joaquim da Rocha Medeiros”

  1. ferferzinhaon 07 out 2009 at 8:49 AM

    isso e muito interessante para nos que somos muito burros mas isso fala sobre o sertao brasilero mas nunca deixa de ser um comentario muito ironico!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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