Biografia de Dr. Geraldo Rocha

Dr. Geraldo Rocha e sua esposa, a francesa Madame Jane

Antônio Geraldo Rocha, que depois abreviou o seu nome para Geraldo Rocha, nasceu na cidade de Barra, no dia 14 de julho de 1881, filho de Antônio Geraldo Rocha e de D. Cantionilia Mariani Rocha, havendo tido duas irmãs, que foram Custódia e Cantionilia Rocha.

Quando Geraldo tinha apenas sete anos, sua família se mudou para Barreiras, sendo nossa terra apenas um povoado, e aqui ele fez os seus estudos primários. Chegou com o pai e as irmãs, pois nessa época sua mãe já havia falecido, tendo vindo juntamente com seu tio Francisco Rocha e sua família. Os dois irmãos, Antônio Geraldo e Francisco Rocha construíram, para morar, um lindo sobrado no início da rua Ruy Barbosa, que, infelizmente foi demolido, como muitos outros prédios históricos da nossa cidade. Dele restou apenas a foto e assim podemos visualizar a casa onde se criou Geraldo Rocha, dos sete aos 14 anos (sobrado no lado direito, com as janelas do piso superior em arco, nas fotos abaixo). Então seu pai enviou-o para prosseguir os estudos em Salvador, no Colégio São José e depois na Escola Politécnica da Bahia, onde se formou engenheiro civil em 1905. Seu primo, Francisco Rocha, também foi estudar em Salvador e se formou em Medicina.

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Rua Ruy Barbosa, esquina com a Praça Duque de Caxias (Praça do Coreto)

Praça Duque de Caxias por você.

Formado, seguiu para o Amazonas, e lá trabalhou por seis anos, como Inspetor-Chefe da famosa Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, tendo levado de Barreiras o topógrafo prático Joaquim Raulino Sampaio. Nesse tempo desbravou e conheceu grande parte da região do Amazonas, sendo um entusiasta das suas possibilidades minerais, mas não acreditava na viabilidade de sua utilização para a produção de gêneros alimentícios. Dizia que lá havia manchas de terras boas, mas salientava: – ”Terra onde o peixe não tem espinha não serve para a agricultura, pois falta o cálcio indispensável e não podemos pensar em correção, quando temos a área do rio São Francisco, com seus afluentes de terras calcárias, facilmente mecanizáveis, de transporte mais fácil e também irrigáveis. Este rio – no dia em que a miopia dos nossos governantes se extinguir – será o celeiro do país e com duas lavouras anuais.” E acreditando no seu grande rio, após visitar os trabalhos de irrigação em Assuã, no Egito, Geraldo mandou engenheiros franceses, em 1922, estudarem as possibilidades de irrigação e da cultura do algodão na bacia do São Francisco.

Contrução da Usina Hidrelétrica de Barreiras (Usina Rocha)

Fiel aos seus propósitos, de 1920 a 1928, com o engenheiro hidráulico polonês, Dr. Filipowisk e o engenheiro mecânico alemão, Dr. Hunter (nome que ele mesmo traduziu para Caçador, como era conhecido em Barreiras), construiu um dique no rio de Ondas e um canal de 8 km de comprimento e 10 metros de largura, para que, caindo em uma cachoeira também construída por ele, movimentasse 3 turbinas que passaram a gerar a eletricidade hidráulica em Barreiras. Com isso, abriu as portas ao progresso, através do aproveitamento das nossas riquezas naturais. As ruínas da hidrelétrica e o canal, feito à mão pelos sertanejos, e de que ainda existe a primeira parte, são exemplos que ali perduram, sem sofisticações e sem exageros de gastos supérfluos. E que fazem doer a alma dos barreirenses pelo abandono dessa grande obra, que pode e deve ser resgatada, como um memorial do seu fundador e da energia elétrica em Barreiras.

Vista do Rego e do antigo Matadouro

Na década de 1930 constrói um matadouro-frigorífico, para aproveitamento do gado e dos suínos da região e do estado de Goiás e, por vários anos, produz o charque, que era transportado para o Rio de Janeiro, através dos navios a vapor da Viação do São Francisco e da Viação de Pirapora, fazendo, de trem de ferro, o último percurso até a então capital federal. Dali o charque barreirense era levado para os Estados Unidos e a Europa, durante a Segunda Guerra Mundial. Ao fim do conflito, os presuntos, salames, filés e outros cortes finos, defumados, eram também levados para o Rio de Janeiro, a partir de 1945, pelos aviões da Panair do Brasil, companhia aérea pioneira na aviação nacional e proprietária do aeroporto de Barreiras, até 1964.

Outro feito foi trazer a Barreiras o famoso engenheiro italiano, Gallioli, que, por intermédio da Comissão do Vale do São Francisco (atual CODEVASF), estudou os solos e o plano piloto de irrigação em Barreiras. Em 1946, na sua vinda a Barreiras, a convite de Geraldo Rocha, o Presidente da República Eurico Gaspar Dutra, assinou, na Fazenda Água Doce, onde era hóspede de Geraldo Rocha, o Decreto que autorizava a construção da barragem de São Desidério e o plano piloto de irrigação.

Finalmente lembro-me de uma conversa a que assisti, de Geraldo Rocha com o Presidente Getúlio Vargas, em 1935, no Palácio do Catete. Geraldo, nesta ocasião, dizia ao Presidente Vargas, que ele estava criando indústrias, ainda que necessárias ao país, e uma organização social com Institutos que iriam falir em pouco tempo, a menos que o Presidente fosse aumentando suas taxas anualmente e isso redundaria em ônus insuportável a essas indústrias que estava criando.

Argumentava Geraldo que nenhum país poderia ter uma indústria competitiva, sem que tivesse, também, uma agricultura estruturada, racional, produzida mecanicamente e transportada por via fluvial e marítima ou por estrada de ferro. –“ Urge, Presidente Vargas, que o senhor cuide de dar ao São Francisco as condições de ser o celeiro do país. O senhor precisa construir a represa de Paulo Afonso e nos dar, de início, um milhão de kilowats de energia.” Getúlio interrompeu-o, para perguntar: – “E quem vai consumir esse milhão de kilowats que pedes para Paulo Afonso?” – “Nós, Presidente, nós nordestinos, que temos inteligência, capacidade de trabalho para vencermos em qualquer lugar do centro-sul. Nós temos hábito de conviver com o sofrimento. Se o senhor nos der energia e condições de vida, ficaremos trabalhando no Norte e Nordeste e não viremos fazer favelas no Rio e São Paulo. E mais, Sr. Presidente, o senhor precisa pensar nas represas de Sobradinho, Boqueirão, Três Marias, Paracatu, Rio das Velhas e outras, que assegurem a navegabilidade do Rio São Francisco durante o ano todo e evitem também as enchentes que perturbam a vida de nossa gente. O rio Grande tem um desnível de até um metro por quilômetro: uma represa nesse rio nos daria cerca de 200.000 hectares de terras irrigáveis por gravidade, que é a maneira mais econômica de se fazer irrigação.”

Dr. Geraldo Rocha e o ex-Presidente da Argentina, Juan Domingo Perón, de quem era amigo pessoal

Este é um resumo de uma pequena biografia de Dr. Geraldo Rocha, feita pelo seu sobrinho, Dr. Orlando Rocha de Carvalho, que, na década de 1920 foi enviado pelo tio para estudar Agronomia nos Estados Unidos, na Universidade de Cornell.

Nela podemos compartilhar a emoção de quem assistiu aos fatos e à conversa do biografado com o Presidente Vargas, em que Geraldo Rocha lhe expõe as potencialidades do rio São Francisco e as obras necessárias ao seu aproveitamento, que hoje estão, em grande parte construídas, como a barragem e o Projeto de Irrigação de São Desidério.

Ainda na década de 1930, Dr. Geraldo mandou tirar fotografias da corredeira do rio São Desidério, para demonstrar como ali poderia ser construída a barragem, que, devido ao seu empenho, lá foi feita, possibilitando a irrigação.

Mas o engenheiro Geraldo Rocha era também um entusiasta da beleza feminina e foi ele quem organizou, em 1930, o primeiro concurso de beleza no Brasil, com a presença de candidatas de todos os Estados brasileiros. Ele queria que Barreiras também concorresse, até foi eleita uma linda Miss: a jovem Adalice Jacobina, que, infelizmente, não pôde ir ao Rio de Janeiro concorrer, pois a sua família não permitiu. Mas houve o concurso inicial aqui e ela foi, assim, a primeira Miss Barreiras.

Outras obras: Trabalhou em Manaus, a convite do Governador do Amazonas, Constantino Neri, construindo o Mercado Itacoatiara, em Manaus, e a Avenida 24 de Maio, uma das mais belas artérias da capital amazonense. Também trabalhou no Rio Grande do Sul,, com o Governador Borges de Medeiros, construindo o porto de Rio Grande.

Edifício A Noite, no Rio de Janeiro

Edifício A Noite, no Rio de Janeiro

Voltando ao Rio de Janeiro, assume a direção do jornal “A Noite”, cuja tiragem aumenta para 350 mil exemplares diários, devido aos seus esclarecedores e polêmicos artigos econômicos e políticos. Em seguida constrói, em 1930, o edifício “A Noite”, de 23 andares, à época o mais elevado da América do Sul. Saiba mais sobre a construção do Edifício “A Noite”.

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Pesquisa o rio Ganges, na Índia, o Níger, na África, o vale do Tenessee, nos Estados Unidos, a produção agrícola do Nilo, no Egito. Estuda o que há de mais atual nas técnicas de irrigação agrícola e trabalha com dados estatísticos para demonstrar a eficácia da agricultura mecanizada, propondo, com sucesso, ao Governo Federal a criação da Comissão do Vale do São Francisco, atual CODEVASF, para o que muito influiu seu livro “O Rio São Francisco, Fator Precípuo da Existência do Brasil”

Em 1945 constrói em Barreiras um hospital de 50 leitos e traz o Presidente Dutra para recebê-lo.

Em 1947 funda o jornal “O Mundo” e as revistas “O Mundo Ilustrado” e o “Mundo Agrário”, que tiveram grande influência nacional.

Morreu aos 78 anos, em 1959, e dele disse Pedro Calmon: “Geraldo é um sertanejo, que, sendo ilustrado e ilustre como poucos, tem esporas no espírito”.

Antes Dr. Geraldo havia escrito, em um de seus artigos, que queria vir a Barreiras para terminar os seus dias, ouvindo o cantar dos pássaros e o mugir dos animais, dando seu corpo para fertilizar o chão de sua terra. Diante disso, sabendo que repousa no Rio de Janeiro em um obscuro jazigo, fazemos um apelo à nossa Prefeita, Jusmari Oliveira, para que promova o traslado dos seus restos mortais e de sua mulher, D. Jane, para Barreiras, onde existe, no cemitério São João Batista, um magnífico túmulo de mármore preto, feito por ele, para enterrar o seu pai, Antônio Geraldo Rocha.

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Bibliografia: “Legados da História – Geraldo Rocha, o Mito”, da autoria de Napoleão Austregésilo Dias de Macedo. “Perfil de Geraldo Rocha”, escrito por seu primo em segundo grau, Marlan Rocha.

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Saiba mais sobre a vida e as obras de Dr. Geraldo Rocha em Barreiras:

Comentários

  1. Lucy disse:

    D. Ignes,

    Parabens por este trabalho maravilhoso que é manter viva a historia de Barreiras.

    um forte abraço

    Lucy

  2. Raquel Arnaud disse:

    Estimada Ignez Pitta,
    Uma das importantes filhas de Barreiras, Evelyne Arnaud Sampaio Pedrosa, filha de Alfredo Sampaio e Elisabete Arnaud, irá lançar seu livro O Sonho das Rosas e dos Lírios, dia 20/5/09, às 20h, na Escola de Música de Brasília/DF.
    Assim, gostaria de comunicá-la sobre esse evento, a qual contará também com um recital em homenagem a Evelyne, chamado Um Bouquet ao piano, com a sua filha Soledade Arnaud.
    Se possível, entrar em contato no email informado para que possa enviar o convite e posteriormente enviar o livro à senhora.
    Abraços
    Raquel Arnaud
    (neta de Evelyne)

  3. joão queiroz disse:

    ao visitar esta pagina entendi porque barreiras tem tanta historia pra contar.
    joão Queiroz de Souza – jornalista do jornal o corrente.

  4. luercio pinto disse:

    essa historia de geraldo e di arrepiar, como eu estivese participando na epoca, parabens ines pitta

  5. Arlindo Rodrigues disse:

    Parabéns!!

    Sempre que leio sobre a minha cidade maravilhosa, me lembro constantemente do seu trabalho, pois, é através dele que eu e meus filhos conhecemos esta linda história.

    Abraços,

    Arlindo Rodrigues.

  6. vaneusa disse:

    oi preciso de dados de como surgiu o colegio antonio geraldo ,o ano,a sua importancia para a regiao,

  7. wanderson barbosa disse:

    D. Ignez, encantadìssimo com o cuidado raro com a historia de barreiras e com sua ancestralidade, meus ancestrais a muito sairam dessa regiao rumo a Goias e hoje enfrento verdadeira dificuldade no levantamento de dados relativos a minha familia em Barreiras/angical, gostaria muito de poder contar com sua preciosa ajudas quanto a Familia Moreno nessa região, grato de antemão por toda ajuda.
    Wanderson.
    p.s. meus bisavós: Manoel Caetano Moreno e Maria Francisca de Souza.

  8. joao queiroz de souza disse:

    ola ignes, cada vez que passo por estas informações citada neste Biografia não ha como não parabenizar por esta exemplar historia do Dr. Geraldo Rocha.
    em breve vou publicar em nosso jornal o corrente.
    que pode ser acessado no email http://www.paper4web.com
    abraços.

  9. Dirlene Macedo disse:

    Ignez.querida amiga.Minha memória é muito fraca e de certa forma contribui para que eu mais e mais mergulhe na história de nossa amada Barreiras.Devo lhe dizer que você é o nosso orgulho.Meus agradecimentos eternos.
    Beijos e abraços saudosos.
    Dirlene Macedo