out 07 2009

Ciclo do Ouro – II

ouro

Nas primeiras décadas do século XX, eram tão atrativos os garimpos de Goiás, que se tornou comum saírem da nossa região (a cavalo, que era o único meio de transporte), até famílias inteiras, pois o pai ia correndo atrás do sonho de “bamburrar”, isto é, achar uma enorme pepita e ficar rico em pouco tempo. Outros homens deixavam a família para trás e viajavam sozinhos, às vezes para nunca mais voltar… E aqui ficavam as viúvas e órfãos do ouro!

A verdade é que não sei de ninguém que “bamburrou”, mas sim, me lembro de que em 1948, quando Sabino Dourado tomou posse como Prefeito de Barreiras, mandou buscar, num garimpo goiano, o barreirense Sr. Cornélio Araújo, com seus familliares, pois necessitava de seu trabalho na contabilidade da Prefeitura, e aí, sim, foi Barreiras quem bamburrou, com o retorno daquele filho pródigo, que foi, até o fim da vida, um excelente funcionário municipal e cidadão exemplar!

peixe

Era constante a chegada de boiadas, vindas de Goiás para Barreiras, ou de tropas de burros carregadas de carne goiana, que era carne seca, feita à moda deles lá, que incluía expor a carne salgada ao sol e ao sereno, o que lhe dava um sabor carcterístico. Os comerciantes goianos de ouro agregavam-se a essas vagarosas comitivas, levando as pepitas em litros de vidro transparente, que eu cresci vendo meu pai, Edgard de Deus Pitta, receber das mãos do seu fornecedor, Coronel Afonso Carvalho. Abençoada sociedade honesta, a de então, pois só Deus e todo mundo sabia que eles transportavam ouro e nunca houve qualquer incidente!

Um dos gestores da empresa Braga & Cia, com toda certeza por razão de segurança, meu pai recebia o valioso produto em casa e eu me maravilhava ao ver o Compadre Afonso tirar do alforge litros e mais litros cheios de pepitas! Sinto muito por não haver perguntado a meu pai como era feito o transporte da mercadoria até à empresa e de lá para a casa onde ficava a fundição do Sr. Clóvis Macedo, que iria converter o ouro bruto, impregnado de detritos, nos fulgurantes lingotes de um kg., que tinham gravada a logomarca da firma Braga e seriam comprados todos pelo Governo Federal.

A fundição de Seu Clóvis ficava na primeira casa da rua situada ao fundo do prédio da Loja da Economia, fronteira ao Banco do Brasil da Praça São João, que, agora, está alugado a uma Faculdade de ensino à distância. Fascinou-me a coincidência: onde se purificava e moldava o ouro, agregando-lhe valor, hoje vão ser transmitidos conhecimentos, ampliando os horizontes dos jovens!

Vapor8

E aí chegava a vez do transporte: em navio a vapor até Juazeiro BA e de lá, no trem de ferro Maria Fumaça, levado por um funcionário da empresa em Juazeiro, até Salvador. Isso por anos a fio. Mas o pote vai tantas vezes à fonte, que um dia quebra…

E eu sendo já adulta, meu pai me contou que embalava o caixote de madeira em que iam as barras de ouro, colocando-o ao centro de um caixão grande, também de madeira, carregado de bananas (Barreiras exportava alimentos, frutas, inclusive), que era todo lacrado com pregos e entregue pessoalmente ao Comandante do vapor. Mas um dia, estando fazendo essa embalagem do ouro em uma sala de acesso restrito da empresa, de repente entrou porta adentro o timoneiro do vapor, que na bacia do São Francisco era chamado de prático, e, aparentando muita amizade, começou a falar pelos cotovelos, puxando um assunto após o outro…

Meu pai, a princípio, parou o que estava fazendo, mas logo, logo o vapor iria zarpar… O prático continuava com a conversa de cerca Lourenço e ele foi “obrigado” a prosseguir e concluir a embalagem da preciosa carga, pois naqueles bons tempos as pessoas eram muito gentis, não podiam fazer uma desfeita a alguém que os visitava, querendo só jogar conversa fora…

vapor

Daí a pouco tempo o vapor partiu, para ir passar a noite no porto de São José, em Riachão das Neves. No dia seguinte meu pai recebe um telegrama do Comandante, (no tempo da navegação a vapor havia telégrafo em todos os portos), informando que, durante a noite, o vapor havia se soltado e afundado no meio do rio, sendo necessária a ida de mergulhadores experientes para resgatar o caixote do ouro. Chegando lá, meu pai assistiu ao Comandante explicar onde se achava o caixão que os mergulhadores deveriam rebentar, para salvar o caixote do ouro e também viu, consternado, o retorno deles, informando que o caixão já estava rebentado e caixote… me livre, necas de pitibiribas! Meu pai lembrou-se do prático: cadê o homem? ninguém sabe, ninguém viu! E os mergulhadores desceram de novo, dessa vez encarregados de procurar outra coisa, que facilmente encontraram: o rombo feito pelo prático no casco do vapor!

Esse foi o único prejuízo, num mercado tão seguro para os padrões daquele tempo, mas onde um homem, que não era da nossa região, na ânsia de apoderar-se de vários quilos de ouro, foi capaz de violar os códigos de honra… Meu pai dobrou as precauções na hora da embalagem da mercadoria e nenhum outro problema ocorreu até esgotarem-se os garimpos de Goiás, extinguir-se a navegação, a própria empresa… Mas você ainda pode ver, usado pelas barreirenses, um lindo peixe de ouro ou um típico crucifixo de Goiás, comprados por seus pais ou avós…

2 comentários

2 comentários to “Ciclo do Ouro – II”

  1. Ana Barroson 21 out 2009 at 10:51 PM

    Lembro-me de um peixe de ouro que a minha vó sempre usava. Eu não sabia que Cornélio Araújo também saiu em busca do tão procurado metal. Surpresa!
    Parabéns Ignez! pelo belo trabalho, Barreiras fica lhe devendo mais essa.

  2. Izoon 21 abr 2010 at 3:07 PM

    Se Barreras – BA, tem história perene, devemos essa brilhante senhora Ignez!!!!

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