Choram as águas

Minha amiga e vizinha Ivone gosta, como várias outras pessoas, de lavar roupas no rio Grande, lá na margem da rua do Humaitá. Assustei-me quando a encontrei com a perna coberta de uma massa amarela.

- Que é isto, mulher?

- É enxofre, para combater micose. Agora a água do rio está dando micose na gente. Dizem que enxofre é bom.

Antes, há alguns anos, o Sr. Zé Preto, tirador de areia do rio, já me havia dito que ficava com o corpo coçando, das águas do rio.

Meu Deus! Tantos são os esgotos in natura que profanam a pureza das nossas águas, que agora elas causam coceiras, micoses… Como se pode ultrajar assim a natureza? Águas limpas do nosso Rio Grande, emporcalhadas pela irresponsabilidade humana, que nelas despejam seus dejetos, sem refletir que todos dependemos da água para viver.

Impacto ambiente no Rio Grande

No dia 05 de outubro houve reunião entre dirigentes da empresa Neoenergia e diversos órgãos ambientais, na Prefeitura. As pessoas daqui se admiraram de como esses representantes da empresa veem como um simples incidente todo o mal causado ao rio Grande, inclusive no projeto de irrigação Barreiras-Norte, onde houve prejuízos devido à falta de água, que não podia ser captada com o rio quase seco.

É preciso não haver descuido na fiscalização dessas obras potencialmente capazes de produzir grandes impactos ambientais. Até com a licença vencida há dois meses a Neoenergia estava!

Quem quiser deixar seu protesto, o site da Neoenergia é http://www.neoenergia.com/ri/index.asp?m=pages_faleconosco

IBAMA multa PCH/São Desidério em R$6 milhões

A construção da Pequena Central Hidrelétrica (PCH) Sítio Grande, no Rio das Fêmeas, município de São Desidério, foi embargada na última sexta-feira (1/out), pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e recebeu uma multa de R$ 6 milhões. O embargo ocorreu depois que a direção da usina, que pertence ao grupo Neoenergia, efetuou o enchimento da barragem na última semana, sem observar a indicação do Instituto de Meio Ambiente da Bahia (IMA), que na licença de implantação (vencida há dois meses) recomendou que a operação acontecesse em dezembro, no período das chuvas, quando os rios estão com carga máxima.

Os fiscais descobriram o crime ambiental ao pesquisar o que provocou o rebaixamento de 60 cm no nível da água do Rio Grande, que atravessa a cidade de Barreiras. Ao chegar à PCH Sítio Grande, confirmaram o barramento de 80% das águas do Rio das Fêmeas, afluente do Grande. A situação foi normalizada com o enchimento do reservatório depois de 48 horas. A gestora ambiental do Instituto Bioeste, Luciana Moraes, que desenvolve trabalhos com comunidades ribeirinhas, disse que, desde que a água começou a baixar, tem recebido telefonemas dos moradores destes locais. “Assustados, porque pensam que é o fim do mundo, muitos falam comigo chorando”, afirmou. Continuar lendo

O dia em que o rio Grande começou a secar


Foto da Barragem do Rio das Fêmeas

Pânico, dor, horror… Foi o que viveu a população da bacia do rio Grande, vendo suas águas baixarem, desaparecerem rapidamente, nos dias 27 e 28 de setembro. No leito à mostra, pessoas pegando com a mão os peixes que se debatiam… E as notícias de que o rio das Fêmeas, (um dos formadores do rio Grande) havia secado totalmente, registrando-se a mortandade de peixes. Nos povoados a montante de Barreiras, que ficam acima de onde o rio de Ondas deságua no Grande, já quase dentro da cidade, as águas baixaram muito mais ainda, claro.

Só ontem, dia 29 de setembro, as águas voltaram a fluir, restabelecendo parte de seu volume e, pela televisão, a Presidente do Comitê de Bacia do Rio Grande, Profa. da UFBA Joana Luz, esclareceu o incidente. Mas até esses momentos, o pânico se instalou na alma das pessoas. Que se sentiram totalmente abandonadas por suas autoridades, já que nenhuma, de qualquer esfera de poder, saiu a público para explicar o que estava sucedendo. Continuar lendo

A Voz do Rio

Rio Grande

Durval Nunes

Há milênios desço, cheio de lembranças
Das vertentes mansas lá dos meus gerais
Deita o junco ereto numa reverência
Batem continência os buritizais
Antas, capivaras banham-se em meu leito,
Mergulha seu peito o Martim-pescador.
Espertos peixinhos sobem na desova,
Passo-preto trova do pau d’arco em flor!
Nesta caminhada longa pr`o oceano
Levo desengano, deixo vida e cor.
Por este cerrado – flora colorida,
Sou templo – hermida de paz e amor.
Poço bom de pesca trago na surdina
Água cristalina, boa de beber.
Ao soprar da brisa minhas ondas cantam;
Mil sóis se alevantam para me aquecer.
Mas, enquanto a natureza está sorrindo,
E o progresso consumindo o meu sertão,
Homo sapiens mata os marimbus,
Emas e tatus fogem em procissão
Num quase velório lágrimas derramo.
Ao meu Deus eu clamo neste entardecer:
Basta de efluentes, tenham paciência
Eu peço clemência: Deixem–me viver!

As curvas do Rio Grande

Ignez Pitta de Almeida

O rio Grande faz curvas
pra dar um abraço em Barreiras
em forma de coração.
Cada curva desse rio
é um pedaço de afeição.

O rio Grande faz curvas
pra poder ficar mais tempo
quando passa por Barreiras.
Cada curva desse rio
quer ser nossa companheira.

As curvas do rio Grande,
aninhando as áreas baixas,
criam nelas amplas faixas
pra conter a inundação.
Se São Pedro abre as torneiras
e faz derramar em Barreiras
até mais de um Mês de chuvas,
toda a água, com as curvas,
nas baixas fica retida,
como num imenso lago.

Cada curva é um afago
do rio, para a cidade:
tocá-la, beijando suas margens
é a maior felicidade
das águas, em sua viagem,
em marulhos de emoção.

Numa curva deste rio,
no recanto mais macio
eu plantei meu coração.